Sábado, 2 de maio de 2015
8h30
Carol e eu acordamos cedo com o som do despertador. Eu tinha combinado de sair com a Isabella, minha irmã, e com a Carol, claro. O destino era a Rua Teresa, no Alto da Serra. Aquela rua famosa cheia de lojinhas de roupa — especialmente de lingerie. Exatamente o que eu precisava.
Pela primeira vez na vida eu ia comprar lingeries de verdade, não aquelas calcinhas infantis de personagem ou de algodão simples que eu usava há anos. Agora eu queria peças diferentes, mais provocantes, do tipo fio dental, iguais às da Carol. Algo que fizesse eu me sentir mulher de verdade, que chamasse atenção e fosse adequado pros encontros que eu começava a ter.
Era como se, de repente, eu tivesse percebido que não era mais a menina de antes. E as calcinhas também precisavam mudar junto comigo.
E… eu precisava de algo melhorzinho para ter a minha primeira vez.
Você deve estar pensando: essa menina é doida. Ela já fez anal, já chupou, já foi chupada… como assim ainda fala em primeira vez?
Talvez o que você não entenda é que, na minha cabecinha daquela época, eu realmente achava que ainda era virgem, porque nunca tinha sido penetrada “na frente”. Pra mim, e pra muita gente, virgindade era só aquilo. Toda vez que eu falava isso com a Carol, ela nunca me corrigiu. A época era outra e a mentalidade também.
Eu tinha marcado o passeio no dia anterior, logo depois de voltar do ballet. Pouco antes das 20h, entrei no quarto da Isabella enquanto ela se arrumava pra sair com o namorado.
— Isa… preciso falar com você.
Ela parou na frente do espelho, batom ainda na mão, e me olhou pelo reflexo.
— O que foi?
— Eu… decidi. Quero ter minha primeira vez. E preciso comprar uma lingerie de verdade. Uma coisa sexy. Você vai comigo?
Isabella se virou devagar. Ficou me encarando alguns segundos, surpresa. Depois soltou o ar e se sentou na beira da cama, batendo a mão no colchão pro lado dela.
— Vem. Senta.
Eu sentei. O silêncio ficou meio pesado. A gente sempre foi próxima, fofocava sobre os meninos da escola e sobre quem ficava com quem, mas nunca tínhamos falado de sexo de verdade.
— Mamãe já deve ter conversado com você sobre isso — ela começou, num tom mais sério —, mas como irmã mais velha, eu também me sinto no direito.
Eu sabia do que ela estava falando. Minha mãe sempre foi aberta. Depois da minha primeira menstruação, aos 11 anos, ela sentou comigo e explicou tudo: anatomia, gravidez, camisinha, doenças. Nunca proibiu a gente de se envolver, mas sempre deixou bem claro:
“Valorizem-se. Não saiam dando pro primeiro que aparecer. Esperem até se sentirem realmente preparadas.”
Ela era feminista. Nunca falou em esperar até o casamento.
Isabella me olhou de lado.
— Eu já sei que você tá com alguém. A tia deixou escapar. É com esse Rodrigo, né?
Fingi que não tinha ficado desconfortável.
— É…
Por muito pouco não falei que o que eu realmente queria era perder a virgindade com o Diego. Isabella sempre soube da minha paixão por ele. Mas eu não tinha certeza de como ela ia reagir… então deixei ela acreditar que seria com o “namorado de mentirinha”.
— Rafa, vocês estão juntos há tão pouco tempo. Você não acha que é cedo demais?
Eu baixei o olhar.
— Conta a verdade — ela insistiu. — Ele tá te pressionando?
— Não, Isa, relaxa. — Baixei a cabeça olhando pro nada, com uma tremenda culpa. Minha irmã me tratando como uma santa, sem imaginar o que eu já tinha feito por aí. — Eu que tô a fim.
Isabella ficou em silêncio por alguns segundos, depois suspirou.
— Só promete uma coisa. Reflete bem se você realmente se sente preparada. Porque depois não tem como voltar atrás. E, por favor… camisinha. Sempre.
Eu só balancei a cabeça, sem conseguir olhar nos olhos dela. Morrendo de vergonha.