Segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Voltar de Búzios foi como acordar de um sonho bom, daqueles que a gente implora pra continuar, só mais cinco minutinhos. Mas não teve soneca dessa vez. A realidade me puxou de volta sem dó nem piedade.
As aulas voltaram e as semanas foram passando, uma atrás da outra, cinzentas e previsíveis. E o Diego… o Diego seguiu a vida dele normalmente. Voltou pra namorada como se nada tivesse acontecido entre nós, como se aqueles dias intensos não tivessem existido. Mas pra mim foi um tsunami que me revirou toda por dentro.
Fiquei presa revivendo tudo em looping na cabeça, sem conseguir desligar. Lembrava das conversas, do jeito que ele me olhava como se quisesse me devorar inteira, dos toques “sem querer” que arrepiavam a pele. O corpo colado no meu quando brincávamos no mar e daquele beijo que não aconteceu. Tudo voltava o tempo inteiro, como um filme que não para de repetir, me remoendo e me deixando molhada no meio da aula, apertando as coxas por baixo da carteira.
Não era só desejo, era uma confusão quente e perigosa que me consumia. Me senti vista, desejada de um jeito que nunca tinha sentido antes — quase possuída por aquele olhar dele que parecia conhecer todos os meus desejos. Ao mesmo tempo, a culpa apertava meu peito. Ele era meu primo. Tinha aquela coisa de errado e proibido, e justamente por isso era tão deliciosamente irresistível.
Eu me tocava à noite pensando nele, imaginando o que teria acontecido se tivéssemos dado um passo a mais. Diego não era só uma paixonite de férias. Ele tinha acendido algo dentro de mim que eu não sabia mais como apagar.
E, no fundo, eu não queria apagar. Eu queria que queimasse mais.
Quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Oi Diário,
Eu sei, eu sei… ultimamente parece que só existe um assunto na minha cabeça: Diego. Juro que tento não pensar nele, mas como é que eu vou conseguir se a gente se esbarra todo santo dia?
E o pior é esse jeito idiota como meu corpo reage a ele. Fico boba, sem fala, sem reação. Meu coração dispara, o estômago dá cambalhotas, as mãos ficam geladas e eu odeio me sentir assim.
Hoje o calor estava insuportável. Cheguei da escola com a Carol só pensando em me jogar na piscina e esquecer o mundo. E claro, quem estava lá? Ele.
Juro, Diário, eu tentei não encarar. Passamos pela área da piscina e fomos direto pra cozinha. Abri a geladeira, peguei uma coca bem gelada e fiquei ali, toda plena, fingindo normalidade até ouvir aquela voz:
— Carol, traz um refri pra mim!
Só a voz dele já me desmonta. Carol, debochada como sempre, gritou de volta:
— Vem pegar, folgado!
Ele veio andando devagar, como se estivesse em câmera lenta. De sunga, pé descalço, cabelo molhado e bagunçado, com a água escorrendo pelo abdômen trincado. Eu já devia estar acostumada a vê-lo assim, mas meu corpo não colabora. Meu coração disparou, a respiração ficou curta e a temperatura pareceu subir uns cinco graus só com a presença dele.
Ele entrou na cozinha todo molhado, encostou na bancada com aquela naturalidade absurda e bebeu o refrigerante direto da garrafa. Tentei desviar o olhar e fingir que estava mexendo no celular, mas não consegui resistir. Uma gota d’água desceu lentamente do peito dele, deslizou pelos músculos definidos e sumiu bem na linha da sunga. Eu acompanhei cada centímetro daquela gota como uma completa idiota.
Quando levantei o olhar, ele estava me encarando. Aquele sorrisinho de canto, sabendo exatamente pra onde eu estava olhando. Fiquei vermelha, sem graça, morrendo de vergonha. Tenho quase certeza que ele pensou que eu estava reparando no volume da sunga.
— E aí, princesa? — ele disse, com aquela voz que me desmontava inteira.
Nossa, eu amo quando ele me chama de princesa.
— E aí, muito calor, né? — consegui responder, tentando não gaguejar.
Foi aí que a Carol avisou que ia subir pra colocar o biquíni. Foi minha deixa pra escapar daquele constrangimento:
— Carol, espera, vou com você!
Subi atrás dela já sabendo exatamente qual biquíni eu ia vestir: o vermelho de lacinho, aquele que comprei em Búzios e deixei guardado na casa dela de propósito. Pura estratégia.
Desde que voltamos do carnaval, eu vinha fazendo de tudo pra chamar a atenção dele. Shorts bem curtos e apertados, daqueles que mal cobriam a metade da bunda, decotes mais ousados e, claro, o biquíni vermelho como minha arma secreta. Eu queria provocar. Queria que ele olhasse. Queria mexer com a cabeça dele do mesmo jeito que ele mexia com a minha.
Vesti ele, me olhei no espelho e desci pra piscina de novo.
Ele me deu aquela olhada. De cima a baixo, sem nem disfarçar. Nenhum comentário, só o olhar. Senti o rosto esquentar e o coração acelerado, mas confesso: foi gostoso pra caralho saber que eu estava mexendo com ele.
E lá no fundo eu sabia: estava brincando com fogo.
Mas, naquela idade, eu só queria sentir. Pensar vinha depois.
Que comecem os jogos!