O problema é que o Diego era três vezes mais impossível que o Noah do filme. Porque, além de ser meu primo, o Diego era mais velho, mais experiente, mais tudo… e tinha namorada. E uma namorada lindíssima, por sinal. Na minha cabeça, parecia totalmente impossível que ele pudesse se interessar por uma pirralha como eu, que nem sabia beijar.
Pois é… eu nunca tinha beijado ninguém. Era BV mesmo. Boca virgem. E não era por falta de oportunidade, viu? Tinha vários meninos da escola que viviam dando em cima de mim. Mas sei lá, eu não curtia esse lance de ficar por ficar, de sair beijando por aí só pra dizer que já beijei.
A Carol era a única que sabia dessa minha paixão secreta pelo Diego. E vivia tentando me tirar dessa ilusão. Sempre que o assunto surgia, ela vinha com aquele discurso realista dela, tipo: "Rafa, esquece, ele não presta. Vive traindo a namorada, você merece coisa melhor." E ainda ficava me empurrando pra outros meninos, como se fosse fácil assim trocar de crush. Como se fosse só escolher outro no cardápio e pronto. Mas o problema é que nenhum deles fazia meu coração bater do jeito que o Diego fazia.
Quando o filme acabou, nós duas estávamos com os olhos cheios d'água. Eu ainda tava secando o rosto com a mão quando a Carol virou pra mim com aquele jeitinho debochado de sempre e soltou:
— Prima, sério, você precisa parar de ser tão tímida. Se solta, menina! Beijar é uma delícia!
E já emendou:
— Tá esperando o quê? O príncipe da Disney?
Eu só consegui rir. Adorava quando ela soltava essas com aquele jeitinho debochado, meio tirando sarro da minha cara, mas sempre com sinceridade. Ainda tentei me justificar, mesmo sabendo que ela ia me zoar:
— Ah, sei lá, eu só queria que fosse especial, sabe? Com alguém que eu realmente gostasse.
Carol desligou a TV, virou de frente pra mim e mandou:
— Rafa… às vezes a gente fica esperando tanto o cara certo… Mas deixa eu te contar: eu já beijei muito cara só por beijar, sem sentir absolutamente nada. E mesmo assim, o beijo foi bom, viu? Às vezes o especial nem é o cara. É o momento mesmo.
E como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, ainda completou:
— E por que você não beija o Felipe logo? Você sabe que ele é doido pra ficar contigo.
Sim, eu sabia disso. O Felipe vivia me chamando para as festinhas na casa dele. Ele era da escola, era uns três anos mais velho que eu, estava no terceiro ano, na mesma turma da minha irmã. E ainda por cima era irmão da Júlia, minha melhor amiga. O Felipe era super gato, popular, mas tinha fama de pegador, daqueles meninos que ficavam com várias garotas. E sinceramente? Eu não tava muito a fim de ser só mais um nomezinho na lista dele.
Mesmo assim, a Carol insistia. Vivia dizendo pra eu desencanar do irmão dela e dar uma chance pro Felipe. Mas aí, sei lá. Eu tinha minhas nóias também, né? Vai que o garoto me beija e sai espalhando que eu sou BV… ou pior, que eu beijo mal?! Deus me livre de virar assunto de corredor. Já pensou? "A Rafa é BV!" Socorro! Só de imaginar já me dava um treco na barriga.
— Tá, se você não quer o Lipe… então tem o Adriano. O que você acha dele?
Ela falou com aquela naturalidade toda dela, como se estivesse sugerindo trocar o sabor do sorvete.
— A gente tem nosso lance, mas é só pele, sexo mesmo. Eu não ligaria se você quisesse ficar com ele. E, sinceramente? Tenho certeza que ele também é doido pra te pegar.
— Rafa, ele é gostoso, viu? — continuou, rindo. — Ele tem uma boca… Nossa! Como namorado é uma merda, mas é muito bom de cama.
Dei uma risada nervosa, e respondi:
— Ai, Carol, não! Ele até é lindo e tal… mas ele me olha de um jeito tão... sei lá. Caras assim não querem ficar só no beijo, né?
Ela até concordou comigo, balançando a cabeça. Mas aí, do nada, já veio com outra:
— Tá, mas se você fosse escolher um garoto… quem seria o eleito pro seu primeiro beijo? Só não vale falar o meu irmão, né?
Eu juro que travei. Além do irmão dela, não veio ninguém na cabeça. Nada, ninguém, zero pessoas. Minha mente deu tela azul. Mas aí respirei fundo, reuni uma coragem que nem sei de onde saiu, e soltei:
— Carol… você bem que podia me ensinar a beijar, né?
Ela caiu na gargalhada na hora, como se eu tivesse contado a piada do ano. Pegou o travesseiro, segurou de lado e disse:
— Ah, treina assim, ó… beijando o travesseiro!
E lá estava ela, dando uma aula prática, beijando o travesseiro como se fosse um boy imaginário e ainda me olhando com aquele sorrisinho safado no canto da boca.