Capítulo 0

A sobra do fogo

Até agora quase não falei da Júlia. Ela entra mais nas histórias me fazendo companhia quando eu saio da escola, mas a gente fazia ballet juntas desde criança. Depois da Carol, é a minha melhor amiga. A gente tem história pra caralho juntas.

Ela tem a mesma idade que eu e uma beleza que não precisa fazer força. Alta, corpo esguio, pele clarinha de porcelana, cabelo liso castanho-claro com reflexo dourado caindo até o meio das costas. O que mais me pega nela são os olhos. Aquele azul esverdeado igual ao do irmão. Eu sempre quis uns olhos assim. Teve uma época que usei lente colorida só pra ficar parecida com ela. Eu brincava dizendo que, se eu tivesse aqueles olhos, colocaria todos os homens aos meus pés.

Júlia é muito na dela, bem reservada. Do tipo que fala pouco, mas observa muito. Acho que por isso o pessoal da escola sempre achou a gente metida. Era ela, eu e as duas gêmeas: o quarteto das patricinhas.

Ela já tinha beijado alguns meninos, mas nunca tinha se apaixonado de verdade por ninguém. Não idealizava romance, não ficava sonhando com príncipe. Às vezes eu achava esquisito o jeito que ela falava, como se esse lance de se apaixonar fosse impossível de acontecer com ela.

Sexta-feira, 22 de maio de 2015

19h15

Fui pra casa dela depois do ballet. Já tinha avisado aos meus pais que passaria a noite por lá.

Quando cheguei, o Lipe estava na beira da piscina, deitado na espreguiçadeira bebendo uma cerveja. Ele me deu aquela olhada, parando o olhar no meu collant preto colado e na saia curta de tule, já subindo demais na coxa. Ele não disfarçou.

— Já falei que tu fica bem gostosa com essa roupinha, né?

Eu dei um risinho, achando engraçado.

— É só a roupa da aula, Lipe. Tem nada demais.

— Porra, eu te acho gostosa pra caralho. Bora dar umazinha no quarto. Tava aqui só te esperando.

Ele deu um gole na cerveja.

— Vou tomar uma ducha e já vou.

Nossa, transamos horrores e foi muito gostoso.

20h45

Voltei pro quarto da Júlia ainda cheirando a sexo, a buceta molhada, sem nem tentar disfarçar.

Sentei na beira da cama.

— Amiga… acabei de transar com o seu irmão. Ele é tão gostoso… tem aquele jeito todo marrento, mas até que é legal, né?

Ela tava deitada de lado mexendo no celular, levantou o olhar devagar e deu aquela risada debochada.

— Legal… Legal e galinha, né?

— É

Tive que concordar. Mas eu nem ligava pra isso. A gente só estava se pegando, sem nenhum tipo de compromisso.

Ficamos conversando. 

Ela acabou pedindo os detalhes de como tinha sido perder o cabacinho. Eu tinha perdido fazia só quatro dias. Contei pra ela logo no dia seguinte, mas sem muito detalhe. Contei mais sobre o lance de ter feito sem camisinha e da preocupação que eu tava com risco de gravidez. Essa era a primeira vez que eu ia pra casa dela depois disso.

— Doeu muito?

— Doeu mais no começo. Depois passou.

— Sangrou?

— Sangrou, mas foi bem pouco.

Aí ela continuou perguntando, toda curiosa. Queria saber se ele tinha ido com calma, se foi carinhoso, se eu tinha sentido alguma coisa além da dor, se depois deu vontade de repetir. Perguntou também se eu tinha gozado.

Enquanto ela perguntava, meu olhar parou na boca dela. Lábios carnudos, rosados, o de baixo um pouco mais cheio. Eu nunca tinha reparado na Jú daquele jeito. Já tinha visto ela pelada milhares de vezes, a gente se despia juntas na maior naturalidade, mas agora uns detalhes começaram a chamar minha atenção.

Sei lá. Talvez fosse aquele papo de sexo ou a sobra do fogo que o Lipe, mesmo gostoso, não tinha conseguido apagado de vez. Ou o cheiro do perfume dela. Não sei. Só sei que naquele instante tudo nela começou a me atrair de um jeito estranho.

Ela tava de camisolinha, uma peça fina e curta de alcinha com um decote que mostrava o começo dos seios, e toda vez que ela se inclinava pra frente o tecido escorregava um pouco mais e eles apareciam quase inteiros, meu olhar tinha parado ali sem eu conseguir controlar.

Eu, sem perceber, mudei completamente de assunto e falei:

— Jú... acho que nunca falamos sobre isso... mas você já teve vontade de beijar menina?

Ela revirou os olhos claros, como se parasse pra pensar naquela pergunta feita do nada.

— Não... isso não.

A voz dela saiu baixa, tipo me olhando sem entender, e eu senti o peito apertar de verdade, o coração batendo forte demais. Eu sabia que estava pisando num campo minado muito perigoso. Um erro e eu podia perder a minha melhor amiga, por puro fogo na buceta.

— Hmm... Posso te contar uma coisa que não te contei ainda?

Os olhos dela se fixaram nos meus de verdade — o mesmo olhar hipnotizante do irmão. Só que quieto, a um palmo da minha cara. Aqueles lábios carnudos, rosados, esperando. Ela ainda não fazia ideia do que vinha. A surpresa dela era só pelo tom da minha voz, pelo jeito que eu tinha mudado de assunto do nada.

— Eu beijei minha prima… e a gente transou.

Júlia não se mexeu de imediato. Os olhos claros ficaram presos nos meus por um tempo que pareceu longo demais. A boca se fechou devagar e eu vi a garganta dela se mover quando engoliu em seco. Ela piscou uma vez, bem lenta como se não tivesse entendido ou acreditado no que eu tinha acabado de falar.

— Sério?

A pergunta saiu com uma voz esganiçada, surpresa. Não tinha julgamento, só curiosidade.

Eu balancei a cabeça reafirmando, sentindo o coração bater ainda mais rápido. Caralho, eu estava muito tensa.

— Foi… intenso. Sabe, eu nunca tinha beijado outra menina antes. Mas naquele dia… sei lá, foi tudo de uma vez só, a gente se beijou e acabamos transamos.

— E como foi? — ela perguntou de um jeito que eu não consegui entender direito a intenção por trás, porque não era só curiosidade, tinha uma coisa ali, um desejo escondido na voz.

Eu demorei um segundo para responder. Precisava controlar o olhar, eu parecia uma tarada que não podia ver mulher sem já imaginar o resto. Respirei fundo e fitei os olhos claros dela para não deixar a vista descer até os seios.

— Foi diferente de beijar menino, sabe? Garoto tem aquele jeito mais afoito, né? Parece que vai engolir sua boca, mas beijar ela foi macio, bem macio, suave e com muito carinho.

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