14h
Aos poucos, a galera foi chegando. Era uma resenha no estilo pool party, mas sem frescura de decoração. A área externa era gigante, a piscina enorme na frente da casa e todo mundo pronto pra curtir a tarde, dançar e beber até esquecer da vida.
Felipe já ligou o som no último volume. A Júlia soltou um palavrão e fugiu pro quarto, mas antes me largou um aviso:
— Amiga, aproveita a festa. E cuidado com esses meninos!
Logo apareceram Monique e Fernanda, colegas de classe da minha irmã. Elas pularam na piscina empolgadas e vieram direto na minha direção. Em poucos minutos o papo já tinha engrenado como se a gente se conhecesse há anos. As duas eram simpáticas, divertidas e tinham aquele jeito fácil de conquistar qualquer pessoa.
As duas faziam parte do grupinho mais popular da escola e viviam coladas no Felipe nas rodinhas de conversa. Monique era a que mais chamava atenção: loira, cabelos lisos e compridos até a altura do peito, olhos castanhos vivos com um brilho especial, e um piercing de strass no nariz, desses com pedrinha que brilha quando bate a luz. Era divertida, carismática, extrovertida e completamente desinibida — adorava ser o centro das atenções.
O problema é que nem todo mundo sabia lidar com tanta personalidade, e ela acabava virando alvo de comentários maldosos: “rodada”, “vadia”, “piranha”. Mas ela? Zero preocupação, não tava nem aí. Continuava sendo quem era: linda, segura de si, deixando qualquer cara aos seus pés. Confesso que eu sentia uma pontinha de inveja dessa autoconfiança toda.
Fernanda era diferente, bem mais reservada. Mas bastava ficar perto da Monique para ela se soltar completamente. E como não se soltar com a Monique por perto, né?
Fernanda era linda também: pele bem clarinha, cabelos pretos lisos e compridos, olhos castanhos expressivos. Nas costas, logo abaixo da nuca, tinha uma tatuagem incrível que logo me chamou atenção: uma borboleta com uma das asas em formato de coração, rodeada de florzinhas. No rosto, um piercing de argola no nariz combinava com outro na orelha. E ainda tinha um piercing no umbigo. Esse, claro, só dava para ver porque ela estava de biquíni. Eu adorava o estilo dela. Fernanda era, sem dúvida, muito estilosa.
Falando nisso… nessa época eu vivia pensando em fazer uma tatuagem. Queria algo pequeno e delicado, tipo uma estrelinha discreta ou uma borboleta como a da Fernanda, só que menor e mais sutil. Também sonhava com um piercing brilhante no nariz, igual ao da Monique. Aquela pedrinha que reluzia toda vez que ela ria ou virava o rosto me deixava completamente encantada. Eu tinha certeza de que ficaria incrível em mim. Já tinha até pedido pra minha mãe, cheia de esperança, mas a resposta era sempre a mesma: “Você ainda é muito nova”.
Conversa vai, conversa vem, Felipe chegou me chamando pra conhecer os amigos dele. A maioria eu só conhecia de vista. Assim que saí da piscina, senti seu olhar percorrer meu corpo da cabeça aos pés, aquele olhar de desejo me fez sentir um misto de vergonha e nervosismo. Eu podia sentir meu rosto queimar, sabe? Só não queria que ele percebesse isso.
Ele me apresentou pra todo mundo e, mesmo sendo a mais novinha dali e sem ter o corpo totalmente “formado” daquelas garotas do terceiro ano, senti um monte de olhares masculinos pousando em mim. Parecia até que nunca tinham visto uma garota de biquíni na vida. Por um lado, eu curtia aquela sensação de estar sendo desejada; por outro, me deixava meio constrangida. Me senti exposta e um pouco deslocada.
Felipe me ofereceu vodka com energético. Aceitei e já virei um gole, querendo me enturmar e mostrar que eu também era descolada. Enquanto isso, o som estourava com um "funk proibidão" com aquelas letras bem escrachadas, pornográficas mesmo. Vi algumas meninas da turma dele rebolando até o chão, todas de biquíni fio dental. Eu segurava o riso por dentro, pensando: “Meu Deus… que piranhas exibidas!”
— Rafaella, você curte funk? — Felipe quis saber, curioso.
— Não… meu lance é rock e música eletrônica.
— Ah, então você curte psy — disse Pedro Henrique, entrando na conversa. Ele era um dos amigos do Lipe. Estava se referindo ao psy trance, aquele som eletrônico de rave com batidas aceleradas e repetitivas, com sons psicodélicos e melodias hipnóticas que te colocam quase em transe.
— Curto, sim — respondi, já me sentindo mais à vontade.
— Ah, show! Tenho uma playlist de psy. Mais tarde a gente coloca pra tocar — disse Felipe, sorrindo.
Aí eles quiseram saber se eu já tinha ido a alguma rave. Falei que não, mas que morria de vontade de ir um dia.
Depois disso, o Felipe me levou até a área gourmet, dizendo que queria me apresentar ao primo Arthur, que tinha uns 20 anos. Segundo ele, o Arthur era praticamente um mestre dos drinks e sabia fazer de tudo.
Chegamos lá e de cara, me deparei com um cara lindo, alto e com um sorrisão daqueles que já te ganham na primeira olhada. Na minha cabeça, foi automático: “Nossa, que gato!”. Ele conseguia ser tão lindo quanto o Felipe.
Ele estava atrás do balcão, preparando drinks para duas meninas, quando o Lipe pediu pra ele fazer um bem caprichado pra mim.
Arthur me lançou uma olhada rápida, meio divertida, e perguntou:
— E aí, gatinha, já provou uma piña colada?
Balancei a cabeça, curiosa, e perguntei quais eram os ingredientes. Ele respondeu na hora:
— Rum, leite de coco e suco de abacaxi.
Quando terminou de preparar, me entregou o copo e pediu pra eu experimentar. Dei um gole e… nossa! Amor à primeira golada. Doce, cremoso e refrescante. Virou na hora um dos meus drinks preferidos.