Fiquei ali parada, encostada na lataria fria do carro, sentindo a porra dos dois escorrendo por entre as minhas pernas, o corpo suado, sujo e exausto. Meu estômago revirou de vergonha... mas, no fundo, uma parte traidora minha já sabia que o Diego não ia me deixar ir embora tão fácil.
Diego não ia ceder fácil. Eu sabia disso. Sabia que, se eu falasse “não” com firmeza, ele resmungaria, me colocaria na garupa da moto e me levaria pra casa. Mas também sabia que isso teria consequências. Ele era mestre em me punir depois, de jeitos que misturavam humilhação e prazer de uma forma que me deixava completamente perdida.
Eu nunca fui burra. Jamais pensem isso. Eu via claramente quando ele me manipulava, quando brincava com a minha cabeça, quando me transformava no gato e sapato dele. O problema era que eu gostava. Gostava pra caralho de me entregar pra ele, de deixar ele decidir, de sentir aquela mistura de vergonha e tesão que só ele conseguia provocar em mim.
Ainda agachada no escuro, com a porra dos dois escorrendo pelas minhas coxas e as pernas tremendo, levantei o olhar pra ele. Meu rosto devia estar uma mistura de cansaço, vergonha e resignação. Suspirei fundo e falei, voz baixa e derrotada:
— Tá bom... vamos. Mas precisa de um lugar, né? No meio da rua não, por favor.
E então aconteceu um dos poucos momentos na minha vida em que senti medo de verdade.
Pensa comigo: eu sempre fui uma filhinha de papai, criada numa gaiola de luxo. Nunca tinha pisado num lugar como aquele. Não conhecia nada daquela realidade. E agora eu estava ali, sendo levada pro meio de uma favela de verdade, de um jeito completamente suspeito.
Pra piorar, eu estava exausta, de minissaia sem calcinha e fedendo a porra. O cheiro forte subia toda vez que eu mexia as pernas, me lembrando do que tinha acabado de fazer.
Eu tinha subido na garupa da moto do Diego, que dirigia seguindo o Iuri que ia na frente mostrando o caminho pelos becos e vielas, o lugar era um labirinto. Iuri garantiu que ali era seguro, que ninguém ia mexer com a gente. Mas a verdade é que eu estava apavorada. Meu coração batia forte no peito, um medo gelado misturado com uma adrenalina estranha.
Descemos por uma rua estreita e logo começamos a entrar numas ruazinhas cada vez mais apertadas. Dava pra ver o interior das casas pelas janelas e portas abertas enquanto passávamos — gente assistindo TV, crianças correndo, cheiro de comida misturado com esgoto. O lugar era uma feio de verdade.
Diego parecia fascinado com tudo, rindo baixo de cada detalhe, comentando como se estivesse numa aventura. Eu, por outro lado, sentia o estômago revirando. "Pra onde caralho esse garoto está nos levando?"
Paramos num beco um pouco mais iluminado, o que me deixou com um pouco menos de medo.
— Minha casa é aqui. Vou falar com meu primo, ver se ele libera a casa para gente. Vocês esperam aqui, podem ficar tranquilos, ninguém vai mexer com vocês, tudo bem?
Ele abriu um pequeno portão de ferro e sumiu. Diego ficou comigo, falando um monte de besteira, mas minha cabeça estava um turbilhão e eu nem ouvi direito.
Eu sentia que dessa vez era pior — sempre era pior. Ele não estava só me oferecendo pro Iuri, ele estava me oferecendo pra qualquer um que tivesse um canto pra foder. O critério era simplesmente ter um lugar. Eu estava me sentindo como uma mercadoria sendo vendida na feira.
Não demorou muito e o Iuri voltou acompanhado de outro cara. Quando eu levantei o olhar, senti um frio subir pela barriga.
O outro homem era preto, parrudo, corpo socado e ombros largos. Ele vestia uma regata branca justa marcando o peitoral com correntes de prata grossas no pescoço e um jeito malandro que já dava pra perceber de longe qual era a dele. Ele me olhou de cima a baixo me comendo com os olhos. Era um jeito de olhar quase animal. Do tipo que não disfarça. Eu tinha certeza que se eu desse mole, ele me foderia ali mesmo, contra a parede do beco na frente de todo mundo que tivesse passando sem pensar duas vezes.
— Carai, viado… — ele sorriu, ainda me olhando. — Essa é a novinha que tu falou? Porra, gostosinha pra caralho.
Ele estendeu a mão pro Diego num aperto forte, daqueles que o Diego claramente não estava acostumado a dar, e eu vi meu primo meio sem reação pela primeira vez, sem saber muito bem como responder aquele jeito de favela.
Foi quando o Iuri interrompeu, meio sem graça:
— Esse é o Davi, meu primo. Lá nos fundos tem um quartinho que a gente pode usar.
Davi abriu um sorriso largo, ainda com aquele olhar safado grudado em mim:
— Pô mano, pega a visão. O barraco é humilde, mas tem quartinho lá trás, que tá meio bagunçado, mas dá pra gente ficar de boa.
Eu fiquei quieta ouvindo aquilo e sentindo o meu coração bater forte. Olhei pro Diego, depois pro Iuri, depois pro Davi. Três caras comigo num quartinho nos fundos de um barraco numa favela. Senti o rosto queimar de vergonha e mesmo assim, concordei com a cabeça devagar, tentando esconder o sorrisinho safado que insistia em aparecer no canto da minha boca.
O Iuri contou que o terreno da família dele. A casa da avó ficava na frente e a dele nos fundos. Do lado existia tipo uma vila, onde moravam os tios e primos, com umas cincos casinhas coladas uma na outra.
O tal quartinho ficava lá no fundo do quintal. Pra chegar nele, a gente teve que passar por um corredorzinho estreito entre a parede da casa da avó dele e um muro alto, cheio de fios de energia improvisados e roupas penduradas secando.
Quando o Davi acendeu a luz eu tomei um choque. Não por causa de nenhum fio solto, foi choque de susto mesmo.
Era um cômodo minúsculo, tipo uns dois por três metros no máximo, com o teto baixo de laje bruta, a lâmpada estava literalmente pendurada. A porta era de madeira velha, meio empenada, que rangia alto quando o Davi abriu. Dentro, o cheiro era forte: mistura de mofo e maconha que devia ter sido fumada ali recentemente.
Continua...