Domingo, 9 de agosto de 2026
Fui almoçar com meu pai.
Para ser sincera, nem fui exatamente por ele. Fui mais pelos meus irmãos, pela oportunidade de encontrá-los e passar um tempo juntos. Sou muito grudada na minha irmã, Isabella. Hoje ela tá casada e mora na mesma casa do meu pai.
A imagem que tenho do meu pai é a de um homem sempre muito ocupado, austero e disciplinador. Pelo que sei, o pai dele também era assim, talvez ainda mais severo. Acho que ele cresceu acreditando que esse era o jeito certo de ser pai. Como se o papel dele fosse moldar, não acolher. Como se demonstrar afeto fosse uma fraqueza. Nunca demonstrou carinho, não me lembro de abraços. Nunca houve aqueles momentos em que ele se sentava ao meu lado para perguntar como eu estava, como iam as coisas na escola ou o que se passava na minha cabeça. Pensando bem, ele nem sabe dizer qual é a minha comida preferida.
Eu sempre fui meio nerdzinha. Tirava as melhores notas da turma e me esforçava bastante. Lembro de uma vez em que fui mostrar meu boletim para ele. Estava empolgada, orgulhosa de mim mesma, porque tinha tirado vários noves e dez. Mas a resposta que recebi foi simples e devastadora:
"Você não fez mais do que a sua obrigação."
Lembro da frustração que senti naquele momento. Eu só esperava algum reconhecimento. Queria ouvir um "parabéns", um "estou orgulhoso de você". Na maior parte das vezes em que ele se dirigia a mim era para brigar. Brigava porque eu dormia tarde e acabava me atrasando para a escola. Brigava porque eu quase não parava mais em casa. Brigava pelos gastos no cartão de crédito — e isso recaía tanto sobre mim quanto sobre a Isabella, já que compartilhávamos o mesmo cartão.
Quando os atritos aconteciam, eu levantava a voz por não concordar e batia a porta do quarto para não precisar continuar ouvindo as reclamações. Nessas horas, ele sempre dizia que jamais teria feito aquilo com o próprio pai. Contava que o pai dele nunca permitiu que levantasse a voz. Que apanharia de vara se ousasse.
Lembro de uma vez em que ele bateu nas minhas pernas com um cinto. Eu pulava, gritava, tentava me afastar, mas ele continuava. Nem consigo me lembrar exatamente do motivo daquela surra, só do barulho do cinto, a dor e a sensação de que, naquele momento, eu não era filha, só alguém que precisava ser corrigida.
Eu observava a relação da Carol com o pai dela, sempre cheia de afeto e carinho. Sentia até uma pontinha de inveja. Desejava que o meu também fosse assim. Tinha também o pai da Júlia. Apesar de trabalhar muito, sempre encontrava tempo para dar atenção à filha. Fazia questão de levá-la e buscá-la no ballet. Eu sempre admirei o jeito carinhoso do pai da Jú.
No fim das contas, meu pai sempre deu mais importância ao trabalho, como se o dinheiro pudesse suprir a ausência de afeto. Em relação a isso, não dá pra negar: tive vida de princesa. Ele sempre ofereceu de tudo para mim e para meus irmãos. Só que amor e presença não se compram. Ele podia encher a casa de coisas, mas o vazio continuava lá. Será que esse vazio — a falta de afeto e de validação — me empurrou a buscar isso em homens mais velhos, quando me deito com eles em programas?
Uma vez li alguém dizendo que há um padrão que se repete nas garotas de programa: “ah, coitadinha, ela só faz isso porque o pai não amou”. A frase até me irrita, porque é reducionista demais. Transforma escolha em consequência automática, desejo em ferida mal resolvida. Como se a gente não pudesse gostar de sexo, de dinheiro, de liberdade, e ao mesmo tempo carregar uma ausência. Talvez exista correlação. Talvez o vazio deixe marcas. Mas reduzir tudo a isso apaga o resto: a vontade, o prazer, a decisão. Além disso, a mesma ausência não produziu o mesmo caminho na minha irmã.
A Isabella cresceu na mesma casa, ouviu as mesmas cobranças, sentiu a mesma distância. E, mesmo assim, seguiu outro rumo, somos completamente diferentes. Ela é toda certinha, vive um relacionamento monogâmico e nunca curtiu putaria. Logo, não existe destino automático. A mesma ausência pode virar coisas distintas.
Isso não significa que o vazio não exista. Existe e não posso mentir para mim mesma. Existe um eco e esse eco tem gosto e cheiro de tabu. Vou contar...