Ouvi ele urrando atrás de mim, gemidos roucos e descontrolados, o som de um homem que perdeu todo o resto, que só existia para me possuir. O ritmo acelerou, os quadris batendo contra minhas nádegas com uma força que fazia a cama ranger e meu coração se partir um pouco mais.
E então ele gozou.
Senti a primeira jorrada invadir meu rabo com violência. Quente, densa, quase fervendo. Arrepiou tudo por dentro, como se queimasse as paredes internas e marcasse cada pedaço de mim. Logo veio mais, jatos grossos que transbordaram, escorrendo devagar pela minha bunda, descendo pelas coxas em filetes quentes e viscosos que melavam a pele inteira.
Não era só porra. Era ele. Ele inteiro se derramando sobre mim, marcando território com cada gota. Como se dissesse, sem precisar de palavras: “você é minha. Sempre foi. Sempre vai ser.”
Meu corpo cedeu de vez. As pernas perderam toda a força. Caí de bruços na cama, mole, o coração disparado martelando no peito como se quisesse fugir, a respiração entrecortada e irregular, lágrimas quentes escorrendo pelo rosto sem que eu percebesse quando começaram.
Eu estava toda fodida. Toda dele. E, no fundo, toda quebrada por dentro.
Percebi um movimento pelo canto do olho e virei o rosto. Rodrigo já estava se vestindo. Calado e de aparência triste e insatisfeita.
— Vai embora? — perguntei, ainda deitada, a voz fraca e rouca.
— Acho que tô sobrando aqui — respondeu ele, sem me olhar nos olhos, a voz baixa e carregada de uma tristeza que me atravessou como faca.
Levantei devagar, as pernas bambas tremendo sob o peso do corpo e da culpa que começava a pesar. Fui até ele.
— Fica… por favor. Você sabe que eu te adoro, né? — falei olhando direto nos olhos dele, implorando com o olhar tanto quanto com as palavras.
Ele não respondeu. Só me encarou por um longo segundo, os olhos brilhando de algo que eu não queria nomear.
Me aproximei mais devagar, e encostei os lábios nos dele num selinho calmo, delicado, quase suplicante, como se aquele toque pudesse consertar o que eu havia quebrado.
— Fica… por favor. Tô pedindo — insisti baixinho, a voz tremendo. E insistia porque eu realmente gostava dele. Porque, mesmo depois de tudo, ele ainda importava.
E foi aí que, pasme, até o Diego falou.
— Fica, cara. Ela é sua namorada… se tem alguém sobrando aqui sou eu — disse ele, meio rindo, meio sério, soltando uma risada curta que tentava aliviar o ar pesado, mas que só fez o silêncio depois ficar mais denso.
Rodrigo respirou fundo e fez um leve movimento de cabeça. Parecia um sim, foi o suficiente. Mas, no fundo, nada estava resolvido.
E só aquele gesto de cabeça bastou. Um aceno pequeno, quase imperceptível, mas que aliviou o peso que eu nem sabia que carregava no peito.
Na hora, bateu uma sede imensa. Meu corpo ainda fervia, a pele quente, o sangue correndo rápido demais nas veias. Perguntei, tentando soar casual:
— Vocês querem alguma coisa? Tão com fome? Com sede?
Só o Diego respondeu, com aquele jeito dele, meio preguiçoso, meio mandão:
— Uma Coca bem gelada vai cair bem.
Fui até a copa. Peguei a garrafa de refrigerante, três copos com bastante gelo, e joguei alguns pacotes de biscoito recheado numa bandeja improvisada. O frio do chão subia pelos pés descalços, contrastando com o calor que ainda pulsava no meu ventre. Cada passo fazia as coxas roçarem uma na outra, lembrando-me do que havia acabado de acontecer ali dentro.
Quando voltei ao quarto, os dois estavam sentados na cama. Sentados. Rindo de alguma coisa. O ar parecia mais leve, os ombros menos tensos. Diego jogado contra a cabeceira, Rodrigo com as pernas cruzadas, os dois conversando como se nada tivesse acontecido. Como se não tivessem acabado de dividir meu corpo minutos antes.
Pensei: “Que bom. Pelo menos deu uma descontraída.” E senti um alívio genuíno, daqueles que fazem o peito se abrir um pouco, o ar entrar mais fácil.
Diego me viu entrar e já veio com a língua afiada de sempre:
— Porra, Rafa… teu namorado acabou de me dizer que é vascaíno.
Ele desembestou numa gargalhada alta, exagerada, daquelas que ele usava pra preencher qualquer silêncio incômodo. Batia a mão na coxa, os olhos brilhando de deboche puro.
— É sério isso, cara? Vasco? — repetiu, virando pro Rodrigo com uma expressão dramática, como se tivesse descoberto o maior escândalo do ano.
— Pô, Diego… respeita o garoto — falei rindo, e joguei um travesseiro nele com força. Ele levantou o braço pra se proteger, rindo ainda mais, orgulhoso da própria provocação.
Rodrigo só balançou a cabeça devagar, aquele sorrisinho tímido nos lábios. O sorriso de quem já sabe que vai ser zoado pra sempre, mas que, no fundo, não liga. Ou finge que não liga.
Sentamos ali na cama, os três bebendo uma coquinha gelada, o gás subindo e fazendo cócegas na garganta, gelado descendo devagar. Dividindo os biscoitos recheados, farelos caindo nos lençóis bagunçados, o cheiro doce de chocolate misturado com o ar pesado do quarto. Falando coisas bobas: futebol, uma série idiota que tava passando na TV, uma piada velha que ninguém ria direito mas todo mundo fingia achar graça. Era como se estivéssemos tentando reconstruir uma normalidade que nunca existiu de verdade.
Mas aí olhei pro relógio. Meus pais já estavam pra chegar. O tempo tinha voado sem que eu percebesse.
Levei os dois até o portão. A despedida foi rápida: abraços curtos, um beijo leve na bochecha do Rodrigo, um tapa no ombro do Diego, e eles foram embora caminhando lado a lado, conversando baixo e eu fiquei olhando até sumirem na esquina.
Eu voltei pro quarto sozinha e fechei a porta.
Sentada na beira da cama, fiquei olhando pro nada, a cabeça pesada demais pra encaixar tudo que tinha rolado. O cheiro de homem ainda enchia o quarto inteiro: suor dos dois grudado na minha pele, perfume misturado, o doce enjoativo da Coca derramada no chão. Tentei organizar os pensamentos, mas eles fugiam, escorregavam sem eu conseguir segurar.
Pensei em correr pra casa dos primos, como sempre fazia quando o peito apertava e eu precisava me esconder de mim mesma. Mas não tive força. Fiquei. Tomei um banho rápido, a água quente escorrendo pela pele marcada, lavando o suor e o mel seco, mas não o que ficou colado por dentro.
Vesti uma camisola e me deitei. Apaguei a luz e tentei fechar os olhos.
E aí veio tudo de volta, devagar, sem pedir. Meu corpo revivia cada pedaço: a mão do Rodrigo na minha cintura, firme e carinhosa ao mesmo tempo, a voz rouca do Diego cuspindo aquelas palavras que cortavam e queimavam, o peso dos corpos sobre mim, os gemidos que se misturavam, os olhares que falavam tudo sem precisar de frase. Cada toque latejava na pele, como se ainda estivesse acontecendo agora.
Prazer e culpa se embolavam sem eu conseguir separar, desejo e medo se enroscavam de um jeito que não dava pra puxar um fio sem mexer no outro. Talvez fosse só isso mesmo: o medo de ter gostado demais misturado com a culpa de ter amado cada segundo daquela loucura.
Porque no silêncio escuro do quarto, com o coração batendo forte, eu já sabia: depois daquela tarde, eu não era mais a mesma. Algo tinha se quebrado. Ou talvez algo tivesse nascido.
E eu ainda não sabia qual das duas me assustava mais.
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