Logo que a porta do quarto se fechou com aquele clique seco, o som ecoou no meu peito como se tivesse selado alguma coisa. Pensei na hora: “É, Rafaella… vai ter que dar.”
Lá fora, na sala, meu primo deixou a televisão ligada. O som chegava abafado pela porta, risadas enlatadas de algum programa idiota, propagandas cantadas, como se o mundo continuasse girando normal enquanto eu ficava ali, presa. O ar do quarto parecia mais pesado de repente, cheirava a lençol limpo misturado com um leve perfume de um homem que eu não conhecia.
Meu coração estava acelerado demais. Batia na garganta, nas têmporas, nas pontas dos dedos. Era desconfortável pra caralho. Pela primeira vez na vida eu me sentia exatamente como uma prostituta de rua. Tinha que abrir as pernas pra um estranho, sem um pingo de tesão, sem aquela faísca que geralmente fazia minha buceta pulsar só de imaginar, sem nenhuma vontade de verdade. Era só um negócio. Só pra ganhar a chave daquele apê.
E o pior de tudo: era um programa ridiculamente barato. Enquanto eu olhava em volta, fiz as contas na cabeça. Aluguel mil reais. Meu primo dividindo, quinhentos cada. Uma vez por semana dava cento e vinte e cinco reais por vez. Cento e vinte e cinco reais. Meu Deus… era isso que eu valia agora? A pele arrepiou inteira com o pensamento, era muito barato.
O Daniel sentou na beirada da cama. O colchão afundou de leve com o peso dele. Falou com uma voz calma, quase gentil:
— Pode ficar à vontade, garota.
Eu ainda estava em pé. Meu corpo inteiro tenso. Fiquei olhando o quarto pra não ter que olhar pra ele. O sol da tarde entrava pela persiana meio aberta, desenhando listras douradas no chão. Pra um cara morando sozinho, até que era arrumadinho. A estante de livros feita de madeira reciclada, com aquelas imperfeições bonitas, cheia de volumes. A maioria apostilas grossas, livros escolares, coisas de vestibular. O cheiro de papel velho pairava ali, misturado com cheiro de roupa de cama recém trocada.
Ele percebeu que eu estava reparando.
— Gosta de ler?
— Gosto sim — respondi. Minha voz saiu mais baixa do que eu queria.
Comecei a falar de Game of Thrones, que estava no terceiro livro de As Crônicas de Gelo e Fogo, do George R. R. Martin. Sentia a garganta seca, mas as palavras saíam. Ele respondeu que também curtia bastante, mas que só assistia a série. Ainda não tinha os livros.
Foi aí que a conversa fluiu. Começamos a falar sobre quinta temporada, que estava bombando naquela época. Falamos das teorias, palpites… o que achávamos que ia acontecer, cada um defendendo suas apostas, rindo alto das nossas próprias conspirações.
Eu ainda estava em pé, os braços cruzados sobre o peito como se isso me protegesse. Ele então olhou pra mim e disse:
— Pode sentar aqui, garota. Prometo que não mordo.
Eu ri — um riso curto, nervoso, quase forçado — e finalmente me sentei ao lado dele. O colchão cedeu mais um pouco, meu quadril roçou de leve na coxa dele. Senti o calor da pele através do tecido fino do vestido.
— Ah, eu até gosto de mordidas — falei rindo, tentando soar leve, e completei que adorava histórias de vampiros.
Contei que era louca por The Vampire Diaries, que estava contando os dias pra sétima temporada, e que tinha lido todos os livros da saga Crepúsculo. As palavras saíam mais fáceis agora, o coração ainda batendo forte, mas o corpo começando a relaxar um pouquinho.
Ele riu gostoso, uma risada grave que reverberou no peito dele.
Disse que também curtia vampiros, mas preferia os vampiros raiz, não esses moderninhos que saem durante o dia como pessoas normais.
— Você gosta desses vampirinhos que brilham no sol, né? — ele disse, zoando, o tom leve, provocador.
Eu revirei os olhos, rindo junto, sentindo um calor subir pelas bochechas. O riso saiu mais verdadeiro dessa vez.
— Ah, para. Eu amo TVD — falei, ainda rindo, o riso saindo mais solto agora, quase aliviado por estar falando de algo que eu realmente gostava.
— Eu curto vampiros também… mas os originais. Os de verdade, como o Conde Drácula. Não esses que ficam passeando durante o dia como gente normal…
Quando ele falou “Conde Drácula”, veio na hora um flash tão forte da minha infância que senti até o cheiro de livro velho subir pelo nariz de novo. Eu, pequenininha, fuçando a biblioteca enorme do meu pai. O cômodo era grande, com aquelas estantes que iam até o teto. Cheirava a madeira envernizada, papel antigo e poeira. Eu adorava entrar ali escondida, subir nas prateleiras, me esticar toda para alcançar as prateleiras proibidas para mim. Meu pai mandava ordens pela minha mãe que vivia repetindo “não mexe naqueles livros, Rafa; seu pai não vai gostar.”, mas eu mexia mesmo assim, com coração batendo de pura adrenalina.
Lembro de encontrar aquele livro de capa antiga, couro marrom escuro, todo rachado nas bordas, letras douradas quase sumidas: O Conde de Monte Cristo. Na hora minha cabeça de criança fez a ligação mais óbvia do mundo: se tem “Conde” no título, então é vampiro e ponto final! Meu peito apertou de empolgação. Eu imaginei castelos cheios de sombras, caixões abertos, dentes brilhando na escuridão, sangue pingando devagar pelo queixo de alguém pálido e misterioso.
Eu li as primeiras linhas esperando ver noites de luar, morcegos, mordidas no pescoço, sangue escorrendo pelas páginas. E nada. Só um homem preso numa cela úmida, falando de traição, de vingança, de navios e tesouros. Virei as páginas mais rápido, desesperada, procurando alguma cena com dentes afiados, sangue pingando. Nada. Fiquei olhando confusa, a testa franzida, pensando alto: “Ué… cadê o vampiro?”
Ele arqueou a sobrancelha, curioso, inclinando a cabeça de lado.
— Que foi?
— Nada… — mordi o lábio, tentando segurar o riso, mas os olhos já estavam úmidos de tanto rir. — É que quando você falou “Conde Drácula”, eu lembrei de quando era criança e achei que O Conde de Monte Cristo era um livro de vampiros.
Ele sorriu de lado, aquele sorriso que já mudava o ar do quarto.
— Você gosta mesmo de vampiros, né?
— Sim, gosto — falei sorrindo, sentindo o rosto quente.
Ele chegou bem perto de mim, o corpo quase colando, o calor dele invadindo meu espaço.
— Então cuidado…
— Por quê? — perguntei, a voz saindo mais baixa, o coração já acelerando de novo.
— Porque esse vampiro aqui morde de verdade.
Eu juro… o jeito que ele disse isso, rouco, colado na minha orelha, fez meu corpo inteiro acender. Um arrepio quente desceu da nuca até a base da espinha, a pele formigou toda, a barriga contraiu e lá embaixo, traiçoeira, senti a buceta pulsar de leve, mesmo com todo o desconforto de antes ainda rondando.
De repente ele ficou me olhando fixamente, os olhos escuros passeando devagar pelo meu rosto, pela boca, descendo pro decote do vestido.
— O que foi? — perguntei curiosa, já sentindo o ar ficar mais pesado.
— É que você é tão linda… Fiquei com vontade de te morder toda, sabia?
— Hummm… — respondi rindo baixinho, o riso saindo meio nervoso, meio safado, porque no fundo eu já sabia pra onde isso ia.
Ele encostou perto de mim. O corpo dele quente, quase colado, o cheiro da pele dele invadindo tudo de novo.
Pousou a mão na minha coxa. A palma larga, quente, macia, pesada de intenção. O seu toque, era quase um pedido sem palavras para avançar um pouco mais.
E eu não respondi com palavras. Só deixei as pernas entreabrirem um pouquinho, o corpo cedendo antes da cabeça. Ele começou a subir devagar, os dedos deslizando suaves pela pele da parte interna da coxa, por baixo do vestido, arrepiando cada centímetro que tocava. A pele arrepiou inteira, um frio gostoso misturado com calor subindo pela barriga. Mordi os lábios com força, o coração batendo descompassado, um misto louco de nervosismo e excitação que eu não queria sentir, mas que estava ali, latejando.
Continua...