Quando o mundo parou naquela época de pandemia, o meu já estava parado desde os dezessete anos de idade, quando a minha mãe nos deixou. A paralisia não foi um momento passageiro, mas o início de uma nova e dolorosa forma de existir; o mundo ao redor eventualmente recuperou o ritmo, mas o meu relógio interno travou no instante do adeus, deixando-me em um estado de dormência que contaminou tudo o que veio depois.
As datas festivas perderam o sentido. Dia das Mães, Natal, meu aniversário… viraram dias silenciosos, marcados por uma saudade que aperta o peito de um jeito que só quem perdeu a mãe entende.
Conversando com uma amiga que também já não tem a mãe, ela me escreveu uma frase que mexeu bastante comigo:
“Ser mãe me faz entender de um jeito mais profundo que nosso colo é um lugar sagrado pra proteger e ensinar a amar.”
Eu li e sorri com os olhos marejados, porque o colo da minha mãe era exatamente isso: sagrado. Seguro. O lugar onde eu podia chegar destruída, sem forças, e sair inteira de novo, como se ela tivesse costurado minha alma com as próprias mãos.
Mesmo depois de um dia exaustivo de trabalho, ela sentava comigo. Queria saber tudo: como tinha sido a prova na escola, se a aula de ballet estava me deixando dolorida, o que eu tinha feito, com quem eu tinha conversado e o que eu estava sentindo de verdade.
Eu adorava deitar naquele colo. Mesmo quando já tinha 16 ou 17 anos e achava que era “grande demais” para essas coisas, eu ainda o procurava. Ela passava a mão no meu cabelo, devagar, como quem acalma uma criança e, ao mesmo tempo, acolhe uma mulher.
Tem dias que a saudade é tão física que parece que meu corpo inteiro busca aquele contato, como se ele tivesse ficado gravado na minha pele. Eu fecho os olhos e tento resgatar o peso da mão dela na minha cabeça, o ritmo lento dos dedos; por alguns segundos, sinto como se ela ainda estivesse aqui, protegendo-me de um jeito que ninguém mais consegue.
Por vezes, diante de decisões difíceis, sinto-me sozinha e questiono: “O que ela diria para mim agora? Ela me aprovaria como eu sou hoje?”. Eu nunca contei que me prostituo. Ela sabia apenas da minha hipersexualidade, do meu gosto por múltiplos parceiros, e se preocupava muito com isso. Dizia sempre para eu me cuidar, me proteger e usar preservativo em todas as relações. Eu via o medo nos olhos dela, mas nunca vi julgamento. Nunca. Ela jamais tentou me mudar ou me fez sentir suja. Apenas me olhava com amor e preocupação, dizendo baixinho: “Eu só quero que você seja feliz, minha filha.”
É isso que mais dói e, ao mesmo tempo, mais consola: saber que, mesmo sem saber todos os meus segredos, ela já me aceitava por inteiro. O colo dela era grande o suficiente para abrigar até as partes de mim que eu mesma tinha vergonha de mostrar.
Às vezes a saudade é tão física que parece que meu corpo inteiro dói, como se houvesse um buraco aberto onde o colo dela costumava estar. Eu choro de olhos fechados, sentindo o cheirinho do perfume que ela usava e imaginando o peso da mão dela na minha cabeça. Por alguns segundos, parece que ela nunca foi embora.
Eu queria poder deitar ali só mais uma vez, chorar o que não chorei e pedir para ela me segurar enquanto desabo. Mas então eu lembro que aquele colo não acabou. Ele só mudou de lugar. Ele vive aqui dentro de mim agora, porque colo de mãe não some. Ele permanece de um jeito que só quem já sentiu sabe explicar.