Acontece umas duas, três vezes por mês. Sempre igual, sempre com a mesma cara de descoberta, como se o cara tivesse inventado alguma coisa. Ele marca, ele vem, ele volta. Volta de novo. Aí num dia qualquer, ainda pelado, com aquela voz mole de quem acabou de gozar e acha que teve uma epifania, ele solta: “eu acho que tô me apaixonando por você.”
E eu tenho que decidir, em tempo real, se vou ser gentil ou honesta. Porque as duas juntas raramente cabem no mesmo quarto.
Nenhum deles acha que é cliente. Isso é o mais engraçado. Todos acham que são exceção — que comigo é diferente, que teve alguma coisa ali, que eu ri de um jeito que eu não rio com os outros. Meu bem, eu rio assim com todo mundo. É o meu trabalho rir assim. Você tá pagando exatamente por isso.
Ele não se apaixonou por mim.
Ele se apaixonou por ser olhado.
Pensa no que ele comprou de verdade: uma hora de atenção absoluta. Ninguém olhando o celular. Ninguém dizendo “agora não, tô cansada”. Ninguém cobrando que ele resolva a vida ou pague a faturas, que ele seja algo que não é. Uma hora inteira sendo a única coisa interessante da porra do quarto.
Quando foi a última vez que alguém deu isso pra ele de graça? Nunca!
Aí o cérebro dele faz a conta mais preguiçosa que existe: se me trataram assim, é porque eu sou especial. Não passa nem perto da cabeça dele a possibilidade óbvia — que aquilo tem nome, tem preço, tem hora pra acabar, e que ele sabia dos três quando mandou a mensagem perguntando se eu tinha horário na quinta.
E a parte que mais fode a cabeça deles: não era uma encenação.
Sério. Não era.
A atenção era real. O tesão era real, na maioria das vezes — eu não sou de mármore e alguns clientes são gostosos pra caralho. O carinho depois era real. Eu não fingi nada, porque fingir cansa e eu trabalho demais pra gastar energia com teatro ruim.
O que ele não entende é que ser bom no que faz é o trabalho. A padeira não te odeia porque o pão dela é gostoso. O massagista não tá apaixonado por você porque as mãos dele acertaram o ponto exato das suas costas. Eu sou boa nisso. É literalmente por isso que você voltou. O erro dele não foi sentir alguma coisa. Sentir é legítimo, é humano, eu também sinto. O erro foi concluir que aquilo era sobre ele, quando era sobre competência.
Aí vem a vontade de salvar e essa é a fase que eu mais odeio:
“Você é boa demais pra isso.”
Boa demais pra quê, meu amor? Pro trabalho que eu escolhi, que paga meu aluguel, que me deu horário flexível e independência financeira aos vinte e três anos? Boa demais pro serviço que eu faço melhor do que provavelmente você faz o seu?
Ele tem o sonho do "eu preciso acreditar que te tirei de algum lugar ruim". Porque aí ele para de ser mais um nome na minha agenda de quinta-feira e vira o "Homem Que Mudou Uma Vida". É promoção de cargo. Ele não quer me salvar, ele quer um papel melhor numa história onde o papel dele já tava escrito desde o primeiro pix.
E tem uma crueldade escondida aí que eles nunca percebem: pra ele se sentir herói, eu preciso ser vítima. Ele precisa que a minha vida seja uma merda. Ele tá literalmente torcendo contra mim pra poder me amar do jeito doido dele.
Depois vem o ciúme, que é a parte cômica.
Umas semanas nisso e começam as perguntas. Quantos são. Se eu gosto. Se com os outros é igual. Se eu gozo de verdade ou se é só com ele. Repara no absurdo: o cara passou a odiar a exata condição que fez ele chegar até mim. Ele quer exclusividade de uma mulher que ele só conheceu porque ela não dá exclusividade a ninguém. É como comprar ingresso de show e ficar puto porque tem outras pessoas na plateia.
E não é ciúme de apaixonado, não. Ciúme de apaixonado dói e passa. Isso aqui é outra coisa: é ciúme de quem precisa ser exceção. É orgulho ferido usando fantasia de romance.
O pedido final sempre vem embrulhado em papel bonito.
Para de trabalhar. Fica só comigo. Prova que era de verdade.
Descasca isso e o que sobra é: faz de graça o que você fazia cobrando. Porque só assim ele tem certeza absoluta de que foi especial. Ele quer um comprovante. Amor que precisa de recibo não é amor!
E o preço do recibo sou eu abrindo mão da única coisa que eu nunca vou negociar, que é a parte de mim que decide. Quem entra, quem não entra, quanto custa, que horas acaba. E aí? E aí eu digo não, ele fica magoado, some duas semanas e volta. Sempre volta. Uns voltam pedindo desculpa, uns voltam fingindo que nada aconteceu, um ou outro volta agressivo — esses eu bloqueio e não penso mais no assunto.
Eu não sou vítima dessa história e nem quero ser. Eu tô bem. Eu sei o que eu vendo, eu sei quanto custa, e eu durmo que é uma beleza.
Mas também não sou vilã. Eu não enganei ninguém. Eu não menti sobre a natureza da coisa, não inventei sentimento, não puxei ninguém pela mão prometendo o que eu não ia entregar. O contrato tava escrito em letra garrafal desde o primeiro “oi, tem horário hoje?”.
Ele é que preferiu não ler. Ele é que achou que buceta e afeto vinham no mesmo pacote só porque na cabeça dele nunca vieram separados. E quando eu cobrei a hora e não cobrei o amor, ele decidiu que o amor tava incluso de brinde.
Não tava, meu amor.
Nunca esteve.
Você pagou a hora.
A paixão foi por sua conta e risco.