Eu me lembro daquela mensagem como se fosse hoje. Eram três da tarde de um dia de semana morto. O cliente havia sido indicado por alguém de confiança e foi direto: precisava de mim pra um jantar de negócios. O homem com quem ele ia fechar o contrato era daqueles bem família, e ele, solteiro, queria ostentar uma esposa novinha do lado. “Sem ofender”, ele escreveu, “mas você consegue ir mais discreta? Tipo… fingir que é minha mulher?”
Eu li, ri baixinho de como homens podem ser bobos nas suas relações de negócios e achei tudo mega divertido, mas mentir sempre me deixava um pouco mal — como se eu soubesse que, mais cedo ou mais tarde, alguém ia notar um detalhe que não se encaixasse eu sairia de mentirosa. Ainda assim, aceitei. O restaurante era famoso, daqueles caros, de gente com dinheiro de verdade, comida à vontade, luz baixa, taças de cristal que tilintavam. Eu seria louca de recusar. O dinheiro já dançava na minha cabeça, mas havia também aquela curiosidade quente: como seria encenar ser a mulher de alguém por uma noite inteira?
Tomei banho devagar, como sempre faço antes de qualquer programa. A água quente escorria pela pele, e eu sentia o corpo relaxar, mas a mente já corria à frente, imaginando o cenário. Sequei o cabelo com cuidado, deixando os fios caírem soltos sobre os ombros, macios, quase inocentes. Depois fui até o armário. Abri as portas e deixei meus olhos buscando no meio de um monte de roupas o que eu iria usar. Havia tanta coisa ali — vestidos colados, decotes que iam até a barriga, saias que mal cobriam as coxas, tudo escolhido para revelar, para provocar, para fazer um homem esquecer o próprio nome. Mas nada, nada servia para ser esposa.
Fiquei parada ali, nua diante do do guarda roupas, olhando para aquele mar de tecido que gritava “puta” em cada costura. Um vestido de festa? Nem pensar. Seria como levar um holofote para um jantar à luz de vela. Toquei a seda de um deles, senti o frio do tecido contra a palma da mão, e uma melancolia leve me atravessou. Quantas vezes eu já havia me vestido para ser desejada de forma tão óbvia? E agora, para ser invisível no melhor sentido, eu não tinha nada.
Suspirei, sorri para o meu reflexo no espelho da porta — aquele sorriso que misturava safadeza e ternura por mim mesma — e pensei: “Vamos ver o que consigo fazer com o que tenho”. Por um instante, senti pena dele — daquele homem que precisava pagar para ter alguém que fingisse amá-lo na frente dos outros. Pena, curiosidade e, confesso, um desejo secreto de ver até onde eu conseguiria levar aquela encenação.
Eu me lembro do quarto virando um caos de tecido. Metade do guarda-roupas tinha ido parar em cima da cama, tudo embolado, e o relógio no criado-mudo não parava de girar. “Caralho, eu vou me atrasar”, resmunguei, já sentindo o estômago apertar. Eu estava preocupada de verdade. Não tinha nada que servisse.
O celular vibrava sem parar no colchão. Ele me mandava mensagem atrás de mensagem com dicas de moda que me davam vontade de rir e xingar ao mesmo tempo. Logo pra mim, que sou formada nisso. Parecia que o homem estava morrendo de medo de eu aparecer com um tubinho de látex vermelho e salto alto demais. Eu lia e balançava a cabeça, achando graça da aflição dele, mas também sentindo uma pontada de pena — ele precisava tanto daquela mentira que não conseguia confiar nem na minha capacidade de não estragar tudo.
Foi aí que tive a ideia. Estúpida, mas ótima. Peguei uma calça cáqui reta, confortável, daquelas que uso quando quero sumir no meio da multidão. Vesti uma blusa preta básica, sandália baixa e um blazer neutro por cima. Acessórios discretos e um perfume leve, quase sem cheiro. Quem me visse na rua ia jurar que eu estava indo trabalhar num escritório qualquer, não pra fazer um programa.
Subi na parte de cima do armário, esticando o braço o máximo que consegui, e puxei meu antigo fichário da faculdade. A capa tinha o Stitch, aquele monstrinho azul com um olhar travesso me encarando. Por um segundo achei hilário. Removi rapidamente a poeira com a mão, soprei o que sobrou e o coloquei firme embaixo do braço. “É isso”, pensei, sorrindo sozinha. “Vai dar certo.”
Dentro do Uber, que andava mais devagar que tudo, eu ia folheando as informações que ele tinha me mandado e xeretando o perfil dele nas redes. Queria saber com quem eu ia me deitar naquela noite — não de corpo, mas de história. O trânsito não ajudava. “Merda, eu vou chegar muito atrasada”, pensei, mordendo o canto do lábio. E foi exatamente o que aconteceu.
Quase quarenta minutos depois do combinado eu entrei no restaurante. Dei meu nome na recepção, senti o olhar rápido da hostess me avaliando dos pés à cabeça. Ela me levou até a mesa com um sorriso educado. Eu caminhava segurando os livros e o blazer dobrado no braço, o coração batendo um pouco mais forte do que eu queria admitir.
Eu me lembro de ter entrado no restaurante com o coração batendo no pescoço, o fichário da faculdade apertado contra o peito como se fosse um escudo. Não era só o atraso que me deixava nervosa. Era a sensação de pisar num palco sem ensaio, com um homem que eu mal conhecia esperando que eu fosse a esposa perfeita dele por algumas horas.
Fui andando devagar entre as mesas, olhando de relance pra cada cara, o medo apertando a garganta: e se eu confundisse ele? As pessoas mentem tanto nas redes, escolhem as melhores fotos, as que não parecem nada com a cara real. Já pensou eu chegar abraçando o cliente errado, chamando de “meu amor” na frente da esposa de verdade? Que merda seria aquela.
Mas eu vi. Era ele. Sentado ali, ombros um pouco curvados, o olhar ansioso varrendo a porta.
Fiz cara de cachorro sem dono, olhos molhados, quase chorando de verdade porque eu sabia o quanto aquilo importava pra ele e eu, como esposa, nem tinha conseguido chegar na hora. Antes que alguém abrisse a boca, eu soltei, a voz saindo chorosa:
— Amor, me perdoa… fiquei presa na faculdade numa prova idiota, fui péssima. Olha como eu tô vestida, não tive nem tempo de me arrumar pro jantar. Tô me sentindo um lixo.
Eu juro que quase chorei de verdade. Ele ficou sem reação, piscando rápido, como se não esperasse que eu fosse tão boa naquilo.
A esposa do cliente — que pela idade e pelo jeito era esposa mesmo, não troféu — se levantou na mesma hora e veio me consolar, colocando a mão no meu braço com uma ternura que me pegou de surpresa.
— Olha, mocinha, não se preocupe. Agora eu fico mais à vontade. Ele inventou esse jantar de última hora, dizendo que era importante, e eu nem pude me produzir direito. Você é linda e não precisa de roupa nenhuma.
“Roupa nenhuma.” Quantos homens já me disseram isso antes, com outra intenção, e eu quase ri na cara dela ali mesmo. Mas segurei, baixei os olhos, fingi vergonha e agradeci com um sorriso pequeno.
O jantar correu ótimo, no fim das contas. Eles falaram de esportes, de viagens, de negócios. A mulher dele passou a noite inteira me dando dicas de maternidade, como se eu fosse mesmo uma esposa jovem e perdida. Eu ouvia, concordava, ria nos momentos certos, a mão dele de vez em quando tocando a minha sobre a mesa — um toque leve, quase tímido, como se ele precisasse se convencer de que aquilo era real.
Quando acabou, ele me deixou em casa. Pagou um extra generoso, muito agradecido, dizendo que eu tinha salvado a noite. Eu ainda convidei, maliciosa, com aquele tom que só eu sei usar:
— Quer subir? Um after só nós dois…
Ele recusou na hora, o rosto ficando vermelho.
— Desculpa, eu não saio com garotas de programa.
"Ah tá", pensei, enquanto entrava no hall do prédio, rindo sozinha daquele idiota. Fechei a porta do elevador e encostei a testa no metal frio. O riso veio baixo, misturado com uma pena estranha dele — um homem que pagava caro pra fingir ter uma vida que não tinha, mas que na hora de pegar o que era de verdade, de carne e desejo, recuava como menino. Tinha sido bom o teatro, divertido. Mas, confesso, me deixou com um gosto agridoce na boca — o de saber que, no fundo, todo mundo ali. de alguma forma, estava atuando.