Terça-feira, 31 de março de 2015
20h30
Eu estava no meu quarto, jogada na cama de barriga pra cima, olhando para o teto e morrendo de ansiedade. Carol tinha passado o dia inteiro com o namorado e eu não parava de encher o celular dela de mensagens, pedindo pra ela vir logo pra minha casa porque tinha uma coisa urgente pra contar.
Até que o celular vibrou. Era ela: “Tô chegando”. Meu coração deu um salto.
Minutos depois a porta do quarto se abriu com tudo e Carol entrou correndo, se jogando na cama em cima de mim cheia de empolgação e aos berros, rindo enquanto caía ao meu lado, o cabelo bagunçado e o rosto vermelho de tanto correr.
— CONTAAAA TUDOOOOOOO!!!!
Eu caí na gargalhada enquanto ela se ajeitava ao meu lado, os olhos brilhando de curiosidade. Quando ela finalmente se acalmou, comecei a contar tudo o que tinha rolado com o Lipe lá na escola: o jeito como ele me olhou antes de se aproximar, como me pegou firme e me empurrou contra a parede, e como aquele beijo foi esquentando rápido, o fogo subindo pelo corpo inteiro. Foi um tesão estranho e forte que me pegou de surpresa e me deixou sem fôlego e confusa.
Ela não parava de me interromper, querendo saber cada detalhe:
— E aí, ele pegou na sua cintura? Beijou seu pescoço? Veio com língua logo de cara?
Eu repetia alguns detalhes duas, três vezes, rindo da cara dela. Depois que ela se deu por satisfeita, respirei fundo. Porque, por mais que eu tivesse gostado do beijo do Lipe, o Diego ainda dominava meus pensamentos. Ele ainda era o troféu principal, e eu não ficaria satisfeita com um simples prêmio de consolação.
— Prima… — comecei, meio hesitante. — Eu quero sua ajuda numa coisa, mas não começa a reclamar antes de ouvir tudo, tá?
Ela olhou para mim meio de lado, já prevendo um problema.
— Fala logo, vai.
Eu mordi o lábio, sentindo o coração acelerar.
— Eu quero… tipo… um namorado.
Ela soltou uma risada surpresa, misturando surpresa e diversão:
— Pera aí, sua louca! Você acabou de dar o primeiro beijo e já quer namorar, como assim? Vai dizer que tá apaixonadinha no Lipe...
Eu ri da piada, mas balancei a cabeça, sentindo uma mistura de vergonha e excitação.
— Não é isso, deixa eu explicar direito. — Respirei fundo, pensando como contar a ideia. E soltei: — Eu quero um namorado… pra fazer ciúmes no Diego.
Ela não falou nada. Só me encarou, os olhos arregalados, processando a bomba que eu tinha acabado de jogar. Vi o riso sumir do rosto dela, a expressão ficando mais séria, até chegar àquela cara de desaprovação que eu já conhecia tão bem.
— Rafa… — suspirou. — Eu te falei isso mil vezes. Esquece o meu irmão.
Ignorei dessa vez e insisti:
— Eu pensei no Felipe. O que você acha dele?
Carol soltou uma gargalhada e balançou a cabeça.
— Esse daí não rola, garota. Diego vai olhar pra ele e ver que é só um moleque que não compete nem um pouco com ele… — ela se virou para mim, cruzando os braços com um ar debochado. — Tá vendo como sua ideia é uma ideiazinha de merda?
Fiquei ali sentada, mordendo o lábio inferior com força, processando o que ela tinha dito. No fundo eu sabia que a Carol tinha razão — ela sempre tinha razão. Mas eu precisava tentar alguma coisa que realmente mexesse com o Diego, senão ele nunca ia me olhar de verdade. No máximo, se eu tivesse muita sorte, conseguiria uns beijos roubados no escuro… igualzinho ao Felipe.
Depois do silêncio prologando, Carol soltou, quase desanimada:
— Tem o Rodrigo… ele é bonitinho e tá solteiro.
— Ele é mais velho? — perguntei, curiosa.
— Sim, quase a idade do Murilo… — Carol se ajeitou na minha frente, daquele jeito que ela faz quando quer me dar um esporro, e continuou: — E ele é um carinha legal, homem de verdade, sabe? Não aqueles moleques bobos da escola. Quem sabe, vocês até podem até namorar de verdade!
Eu fiz uma careta, afinal namorar de verdade não era o plano. Eu só queria provocar ciúme. Já até imaginei a cena: eu sentada no banco do carona do tal Rodrigo, dando um tchauzinho pro Diego. Ri sozinha da imagem que se formou na minha cabeça.
— Pera, vou ligar pro Murilo.
Carol colocou o telefone no viva-voz e ligou para o namorado, que era amigo do garoto. Contou toda a ideia, explicando que eu precisava de alguém pra fingir ser meu namorado, e pediu pra ele falar com o Rodrigo e ver se o cara toparia.
Pior que o Murilo não pareceu acreditar de cara. Ele era bem ciumento e começou a fazer um monte de perguntas. Acabei entrando na conversa pra explicar melhor: que na verdade eu queria um cara mais velho só pra fazer ciúmes no Diego. Depois que entendeu a real, ele até riu e disse que ia falar com o amigo e passar meu número.
Quando desligamos, ficamos as duas na maior tensão. Eu não parava de roer a unha, pensando: “Será que ele vai topar?”. Cada notificação que chegava no celular me dava um frio na barriga.
Até que o meu celular vibrou.
Olhamos para a tela ao mesmo tempo e demos um grito tão alto que minha mãe veio correndo ver o que estava acontecendo.
— Desculpa, mãe!
— Desculpa, tia!
Assim que a porta fechou, pulamos em cima do celular, disputando quem ia ler primeiro. A mensagem do Rodrigo era toda curiosa e educadinha:
“Oi, sou o Rodrigo, amigo do Murilo. Ele me passou seu número. Posso te ligar?”
Meu coração disparou. Respondi que sim e, segundos depois, ele já estava ligando.
Senti um friozinho subir pela barriga, uma mistura de ansiedade e empolgação que me deixou arrepiada. Olhei para a tela do celular e pensei: “Agora não tem mais volta”.
Atendi a ligação com a voz um pouco nervosa. Depois de um papo básico, combinamos de continuar por mensagem, porque eu disse que ficava mais à vontade digitando. Perguntei se ele usava Skype e passei meu e-mail.
Quando desliguei, ainda com o telefone quente na mão, me bateu um pressentimento esquisito: essa história ainda ia render muito!